É estranho. No mínimo, muito estranho. Mas talvez
somente os que joguem ou já jogaram rugby na vida é que vão entender mesmo!
Depois de um final de semana integralmente dedicado
ao rugby, após o banho gelado da manhã de uma segunda-feira reparo como é
estranho. A barba feita, o cabelo delineado, o sapato lustroso combinando com o
terno sóbrio, a camisa impecavelmente passada e a gravata em harmonia com o
conjunto eram uma imagem diametralmente oposta ao que um espelho refletiria no
dia anterior. Cabelo sujo, rosto barbado e coberto de terra, cortes nos dedos
das mãos, chuteira gasta e apertando os calos, camisa com arestas puxadas pelo
oponente era o que se veria.
Hoje a dor no corpo. Aquela sensação de dever
cumprido, mas o corpo castigado pelas verdadeiras batalhas e a que foi
submetido dentro de campo cobram a fatura depois. O simples digitar de letras
no teclado lembra as travas de chuteira do rival que rasparam os dedos. A cada
saída da mesa de trabalho os joelhos e o tornozelo nos lembram da força
despendida para se dar um tackle. Um a um os degraus que separam os setores do
local de trabalho fazem as coxas se lembrarem das corridas insanas em busca do
try ou das pernas do rival que carregava a bola. Os ombros pesam sobre o corpo
como num pesado scrum à sua frente, um simples olhar para o lado para atender
ao chamado de um colega no serviço parece requerer o mesmo empenho de se entrar
num ruck para recuperar uma bola perdida e salvar o companheiro que está no
solo.
É estranho. No mínimo, muito estranho. Mas talvez
somente os que joguem ou já jogaram rugby na vida é que vão entender mesmo!
O fidalgo “bom dia” remetido educadamente aos
vizinhos já ao sair de casa nada tem a ver com o gesto apontador de “esse é
meu” para o adversário quando se posiciona a linha de defesa frente o ataque
oponente. Os gestos simples e cordiais de ceder lugar no ônibus ou ceder a
frente numa fila a quem assim deseja difere da corrida desenfreada atrás da
oval para chegar nela antes do adversário. O sorriso educado apresentado a
todos é muito diferente daquela boca torta com protetor nos dentes e do olho no
olho ao se formar o scrum.
É difícil, para não dizer impossível explicar a que
nunca entrou em campo para defender as cores de seu time de rugby o que este
jogo significa e as marcas que deixa. Aliás, assim como outros poucos esportes
como o surfe, o rugby ultrapassa os limites do jogo, da pura e mera
esportividades e passa a ser também um modo de vida, um verdadeiro estilo de
viver e encarar as vicissitudes que nos impõem.
As dores pelo corpo só são sentidas justamente na
segunda-feira, pois a alegria, êxtase e emoção de estar no campo jogando rugby
são os grandes analgésicos de qualquer cólera que se sinta. E aqueles que não
sabem o que é isso, que não compreendem que por trás dos músculos cansados, do
pescoço duro, do andar capenga, dos dedos tortos e ralados, da orelha mais
grossa, das juntas que rogam por descanso, existe um sorriso de canto de boca,
existe um brilho no olhar que dá a exata dimensão do que um jogo de rugby
representa para cada um dos seus fanáticos seguidores.
É estranho. No mínimo, muito estranho. Mas talvez
somente os que joguem ou já jogaram rugby na vida é que vão entender mesmo!
texto escrito por Jota após volta do SPAC Lions
2008.

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