domingo, 20 de maio de 2012

COMO UM VERDADEIRO RUGBIER SE SENTE



É estranho. No mínimo, muito estranho. Mas talvez somente os que joguem ou já jogaram rugby na vida é que vão entender mesmo!

Depois de um final de semana integralmente dedicado ao rugby, após o banho gelado da manhã de uma segunda-feira reparo como é estranho. A barba feita, o cabelo delineado, o sapato lustroso combinando com o terno sóbrio, a camisa impecavelmente passada e a gravata em harmonia com o conjunto eram uma imagem diametralmente oposta ao que um espelho refletiria no dia anterior. Cabelo sujo, rosto barbado e coberto de terra, cortes nos dedos das mãos, chuteira gasta e apertando os calos, camisa com arestas puxadas pelo oponente era o que se veria.

Hoje a dor no corpo. Aquela sensação de dever cumprido, mas o corpo castigado pelas verdadeiras batalhas e a que foi submetido dentro de campo cobram a fatura depois. O simples digitar de letras no teclado lembra as travas de chuteira do rival que rasparam os dedos. A cada saída da mesa de trabalho os joelhos e o tornozelo nos lembram da força despendida para se dar um tackle. Um a um os degraus que separam os setores do local de trabalho fazem as coxas se lembrarem das corridas insanas em busca do try ou das pernas do rival que carregava a bola. Os ombros pesam sobre o corpo como num pesado scrum à sua frente, um simples olhar para o lado para atender ao chamado de um colega no serviço parece requerer o mesmo empenho de se entrar num ruck para recuperar uma bola perdida e salvar o companheiro que está no solo.

É estranho. No mínimo, muito estranho. Mas talvez somente os que joguem ou já jogaram rugby na vida é que vão entender mesmo!

O fidalgo “bom dia” remetido educadamente aos vizinhos já ao sair de casa nada tem a ver com o gesto apontador de “esse é meu” para o adversário quando se posiciona a linha de defesa frente o ataque oponente. Os gestos simples e cordiais de ceder lugar no ônibus ou ceder a frente numa fila a quem assim deseja difere da corrida desenfreada atrás da oval para chegar nela antes do adversário. O sorriso educado apresentado a todos é muito diferente daquela boca torta com protetor nos dentes e do olho no olho ao se formar o scrum.

É difícil, para não dizer impossível explicar a que nunca entrou em campo para defender as cores de seu time de rugby o que este jogo significa e as marcas que deixa. Aliás, assim como outros poucos esportes como o surfe, o rugby ultrapassa os limites do jogo, da pura e mera esportividades e passa a ser também um modo de vida, um verdadeiro estilo de viver e encarar as vicissitudes que nos impõem.

As dores pelo corpo só são sentidas justamente na segunda-feira, pois a alegria, êxtase e emoção de estar no campo jogando rugby são os grandes analgésicos de qualquer cólera que se sinta. E aqueles que não sabem o que é isso, que não compreendem que por trás dos músculos cansados, do pescoço duro, do andar capenga, dos dedos tortos e ralados, da orelha mais grossa, das juntas que rogam por descanso, existe um sorriso de canto de boca, existe um brilho no olhar que dá a exata dimensão do que um jogo de rugby representa para cada um dos seus fanáticos seguidores.

É estranho. No mínimo, muito estranho. Mas talvez somente os que joguem ou já jogaram rugby na vida é que vão entender mesmo!


texto escrito por Jota após volta do SPAC Lions 2008.

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